ÉTICA E VIRTUDE

PARA UMA VIDA BOA E AJUSTADA

Autores

  • Cesar Roberto Ritter
  • Tarcísio Ambos Danelon

Resumo

            O mundo ocidental contemporâneo vive uma crise de fundamentos. Os fundamentos remetem à ética, à reflexão sobre a melhor maneira de viver ou a maneira certa de viver. Os valores afirmados pela sociedade estão ao nosso redor, são defendidos, citados, escolhidos para justificarem ações e comportamentos. A crise se instala quando os valores não são anteriores, fundantes das ações, mas apenas justificam o individualismo, o egoísmo e a arrogância do homem moderno.

            Refletir sobre ética significa pensar sobre o que está implícito na vida que aparece, que é a vida moral. Quando a vida moral carece de fundamentação, admite-se, pelo menos em parte, que a ética que até então sustentava a moralidade não vale mais, os valores antigos fracassaram, permitiram um enfraquecimento da vida prática. O erro pode então voltar quando, ao pensar uma nova ética, pretendemos que nossos juízos tenham validade que transcenda nossas singularidades, que possam ser aplicados em qualquer situação, passando do particular para o genérico sem uma sócioética, uma consensualidade.

            A solução está em propor uma ética que seja uma teoria sobre a moral. Há então a construção de uma ciência da moral, com todas as características da ciência, como o rigor, a universalidade, a argumentação aberta a novas construções, permitindo a dialética garantidora de constante aprimoramento, renovação e até uma reformulação. O caminho a percorrer para uma reconstrução compreende a ideia de virtude e da justiça como a virtude do equilíbrio. Uma vida boa e ajustada, suficientemente fundamentada, passa pela consolidação de uma autoética, voltada para disciplinar o egoísmo e desenvolver o altruísmo, estimulando o alcance da verdadeira condição humana materializada na justiça.

            O entendimento da justiça como algo dentro de nós, que está no homem que age em conformidade com o seu vir a ser, tem seu fundamento na metafísica aristotélica. Para Aristóteles o físico e o metafísico são duas dimensões de um mesmo mundo. Portanto, as virtudes não transcendem até o ser humano, vindas do além, mas são um princípio de ação que estão na pessoa, um modo particular de ser e de agir que podem levá-la a viver bem. Este “dentro da pessoa” seria nossa alma ou psique. Para os gregos a alma significa “aquilo que nos faz mover e pensar”. Então, se a justiça está na alma, há em nós um princípio de ação e pensamento que podem levar a uma vida justa.

            Corpo e psique (alma, para os gregos) formam a unidade da pessoa. As virtudes da pessoa são as suas formas de agir e pensar. Três tipos de comportamento caracterizam as ações humanas, os quais tem uma virtude correspondente, que seriam a melhor maneira de viver aquele comportamento, uma forma otimizada de ser.

            A primeira forma de agir é a racional, mais elevada, sua forma virtuosa de ser é a sabedoria. A segunda é a ativa, guiada pelos sentimentos, cuja virtude é a coragem. A terceira forma de agir é a instintiva, o reino da vontade e dos desejos, que tem na temperança (controle dos desejos) sua virtude. Mas ter todas as virtudes não garante uma vida boa, bela e ajustada, bem organizada. Seria preciso uma quarta virtude que evitasse os excessos e as faltas no exercício destas três formas de agir, que permitisse um equilíbrio entre elas: a justiça.

            O homem justo seria, ao mesmo tempo, sábio, corajoso e temperado (não impetuoso). Justiça seria a virtude da harmonia, que favorece o meio termo entre os benefícios e malefícios das demais virtudes. Ao viver seu justo lugar no universo, o homem conquista a eudaimonia (felicidade), a vida que vale a pena ser vivida, que é um fim em si mesma, que encontra seu maior bem. O problema que segue é determinar qual é o bem, o que é o justo, qual o ponto de equilíbrio a ser buscado pela prática de justiça e quem determina o critério do justo.

            Para entender qual a ordem a ser buscada, percebemos que a subjetividade de cada um procura organizar o pensamento e a realidade. Mas esta subjetividade converte-se em objetividade de todos pela cultura. A objetividade passa a ser instrumento de dominação. Dominar é fazer o outro crer que o mundo que nos alegra o alegrará também (Espinosa). A cultura admite normas sociais que vão além das leis, uma justiça objetivamente traduzida em leis (razão) e também relacionalmente definidas por tomadas de posições em função de sentimentos e necessidades. A objetividade da cultura precisa ser formada pelo exercício de todas as virtudes, onde a justiça guiará a medida necessária em cada situação.

            Uma ética reformada, regeneradora, fundamentada, surgirá do desenvolvimento de um programa altruísta, comunitário, que enfrente o programa egocêntrico da contemporaneidade, gerando uma nova e justa objetividade cultural. A regeneração ética contribuirá com as outras reformas necessárias a sociedade, suscitando uma nova mentalidade de civilidade, compaixão, progresso possível. A prática equilibrada das virtudes estará direcionada a construção de um novo sentido para a ética, resistindo ao individualismo e resgatando a humanidade do homem. Este é o nível ético de uma consciência antropológica que reconhece a unidade de tudo o que é humano na sua diversidade e a diversidade em tudo que é unidade.

Biografia do Autor

Cesar Roberto Ritter

Graduado em Filosofia (PUCRS), Pós-graduado em Psicopedagogia (FAPA – RS), atua como professor de Filosofia e na Pastoral Escolar do Instituto Vicente Pallotti, Porto Alegre.

Tarcísio Ambos Danelon

Mestre em Filosofia (PUCRS), Pós-Graduado em Psicopedagogia (FAFIMC – RS), atua como professor de Filosofia e Ensino Religioso na Pastoral Escolar do Instituto Vicente Pallotti, Porto Alegre.

Referências

ARISTÓTELES. Ética a Nicómaco. Lisboa, Quetzal Editores, 2009.

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PONDÉ, Luiz Felipe. A Era do Ressentimento. São Paulo, LeYa, 2014.

VALLS, Álvaro. O que é ética. São Paulo, Brasiliense, 2003.

VAZQUEZ, Adolfo Sanchez. Ética. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000.

Publicado

2026-07-21

Como Citar

RITTER, C. R. .; AMBOS DANELON, T. . ÉTICA E VIRTUDE: PARA UMA VIDA BOA E AJUSTADA. Anais do Congresso Internacional de Educação, Santa Maria, RS, 2026. Disponível em: https://revistas.fapas.edu.br/index.php/congressoeducacao/article/view/651. Acesso em: 14 ago. 2026.